Opinião: A serviço do paciente, não da indústria


POR CLAUDIO LUIZ LOTTENBERG*

Os meios de comunicação frequentemente surpreendem o público com descobertas fantásticas e novos avanços da medicina para diagnóstico ou cura de doenças.

São novos estudos no campo da genética, novas técnicas em cirurgia, novos equipamentos ou terapias inovadoras que podem até parecer prenúncio de imortalidade.

Ao mesmo tempo, esses meios de comunicação publicam pesquisas mostrando que a saúde esta entre as grandes aflições dos brasileiros.

Em um dos recentes Indicadores de Percepção Social realizado pelo Ipea, por exemplo, a preocupação com saúde na população mais pobre se iguala ao temor com a violência que assola centros urbanos.

Provavelmente isso reflete a situação, também destacada pela mídia, da precariedade do atendimento público, das longas jornadas de espera por exames ou procedimentos médicos, da má distribuição de profissionais de saúde e dos elevados custos da assistência médica.

Ninguém com conhecimento suficiente em saúde ousaria prever uma reversão repentina deste cenário. Afinal, um problema que sempre foi complexo vem se agravando porque envolve cada vez mais interesses, muitas vezes conflitantes.

Assegurar o respeito os princípios de equidade e universalidade previstos na constituição brasileira tem de levar em conta variantes como inovações tecnológicas, práticas médicas, administração hospitalar, regulação pelos órgãos oficiais, sistemas de financiamento (publico e privado), medição de resultados, pesquisas cientificas, relação entre médico e paciente e políticas abrangentes.

Os sistemas de saúde estão quebrados internacionalmente. Talvez uma das razões seja o fato de, ao contrario de outras indústrias, não incluírem adequadamente temas como padronizações, geração de valor, indicadores de performance.

E talvez isso não tenha acontecido pelo receio que a comunidade médica tem de perder sua autonomia e sua individualidade.

Esse conceito decorre da formação individualizada dos médicos, da falta de uma visão da necessidade de trabalho em equipe e da fragmentação da pratica assistencial.

No passado, médicos auscultando corretamente o estetoscópio ou manuseando com habilidade o bisturi eram praticamente a base com que os pacientes contavam para se tratar. Com o avanço da tecnologia e a sofisticação da indústria, o cenário mudou.

Médicos e pacientes se tornaram dependentes de um sistema dominado por fornecedores de equipamentos, próteses, drogas, insumos ou serviços financeiros sem compromissos com os preceitos constitucionais que deveriam reger o modelo de assistência médica no Brasil. A concepção foi e é correta, mas a tal força do mercado tem sido superior.

Subordinadas a investidores internacionais, compondo corporações com interesses globais ou altamente suscetíveis à volatilidade do mercado acionário nacional, esses fornecedores seguem adiante em busca de resultados que diferem -e podem até ser antagônicos- aos indicadores de melhoria da saúde da população, de melhor aproveitamento dos recursos disponíveis, de redução de doenças e de sofrimento dos pacientes.

Infelizmente, essa distorção não é tão perceptível para opinião pública. Cabe à classe médica, portanto, o papel de contribuir para esclarecer o público e sensibilizar a sociedade. É preciso trazer a situação à tona, de modo que a atual geração deixe um legado que possa representar algum alivio para a saúde dos brasileiros no futuro.

*CLAUDIO LUIZ LOTTENBERG, 51, oftalmologista, é presidente da Sociedade Beneficente Israelita Albert Einstein

Fonte: Folha de S.Paulo

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