Cirurgias seguras: Pilotos ensinam `cultura do erro` a médicos

De acordo com estatísticas internacionais, a probabilidade de morte devido a um evento adverso durante um ato cirúrgico é de um para 100

Comandantes da TAP vão treinar, na quinta-feira, profissionais de saúde do Hospital CUF Porto, transformando um bloco operatório num cockpit e onde será dado um alerta de como é possível tornar uma cirurgia tão segura como andar de avião.

“Tanto cirurgiões como pilotos são profissionais altamente qualificados, trabalham em ambientes tecnológicos e o seu negócio é lidar com a vida as pessoas, no sentido de as proteger, mas a cultura do erro é muito diferente nestas duas profissões”, considerou, em declarações à Lusa, o médico Costa Maia.

Segundo o cirurgião, a ideia é a de que as equipas de profissionais que estão num bloco operatório (médicos, enfermeiros, etc.) aprendam com os pilotos a sua “cultura de segurança”.

“Na aeronáutica, usa-se o erro sem culpa, reporta-se o erro no sentido de o evitar. Na medicina, esconde-se o erro e tenta-se arranjar desculpas para não o relatar”, admitiu o cirurgião.

Reduzir complicações e mortes, tendo por base procedimentos de segurança seguidos na aviação, como listas de verificação (checklist), por exemplo, é o grande objectivo desta troca de experiências entre pilotos e profissionais de saúde.

“É uma maneira lúdica de fazer um paralelismo entre a cultura de segurança estabelecida na aeronáutica e o nosso modelo de trabalho”, sustentou o médico, que deseja que os profissionais de saúde percebam o quanto é importante “a comunicação, o diálogo e a cultura do erro, para o evitar e não culpabilizar pessoas”.

Num cockpit de um avião, comandante e co-piloto trabalham em equipa, “com rigor e disciplina” e quando um erro é cometido “é obrigação reportá-lo”, disse à Lusa o comandante Armindo Martins.

“Se não reportar o erro o parceiro do lado irá fazê-lo e esta envolvência é, para nós, natural. Assim se evita que o erro se repita. A realidade dos médicos é diferente, porque não têm cultura de reporte”, disse.

Para o médico, “é preciso promover a comunicação entre todos num bloco operatório, dando uma uniformidade de linguagem aos elementos da equipa”, à semelhança do que também acontece na aviação.

Em 2010, com base em documentação da Organização Mundial de saúde (OMS), a Direcção-Geral de Saúde emitiu uma circular normativa referente à implementação em todos os blocos operatórios do programa “Cirurgia Segura Salva Vidas”, com a aplicação de uma lista de verificação de segurança cirúrgica.

Estas listas de verificação “não são protocolos de actuação, são oportunidades de verificar que os protocolos foram cumpridos”, disse o médico, salientando, contudo, que seguir o rol de procedimentos “ainda aparece como uma coisa a mais” para muitos profissionais.

O cirurgião lembrou ainda que os pilotos são avaliados anualmente, bem como necessitam de uma determinada qualificação para voar um avião específico.

“Nós também devíamos ser avaliados, porque seria importante provar que se tem condições para ser cirurgião. Ter certificação específica para cada área era também importante”, defendeu.

Para este encontro, que reunirá cerca de uma centena de profissionais de saúde daquela unidade hospitalar, Armindo Martins abordará temas como cultura de segurança, comunicação, gestão de conflitos, carga de trabalho, liderança e espírito de equipa.

De acordo com estatísticas internacionais, a probabilidade de morte devido a um evento adverso durante um ato cirúrgico é de um para 100, enquanto a probabilidade de morte num acidente de aviação é de um para 10 milhões.

Fonte: Lusa/SOL

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