Há uma crise no atendimento dos planos de saúde brasileiros?

Folha de S. Paulo – Tendências/ Debates

SIM
Atendimento ``express``, como no SUS

ALFREDO SALIM HELITO

O crescimento da economia do país, nos últimos anos, sem dúvida melhorou a vida de muitos brasileiros, que passaram a consumir mais e ter acesso a serviços antes inatingíveis.
Entre as conquistas de milhões de pessoas está o tão sonhado plano de saúde, na tentativa de fugir de hospitais públicos lotados, com macas nos corredores, falta de médicos e outros funcionários e de atenção adequada ao ser humano.

Esses usuários, porém, só trocaram de drama. Os planos de saúde são gigantes que, entre uma fusão e outra, lucram sem parar, mas oferecem bem pouco a quem paga muito caro pelo serviço.
No momento da venda, os planos de saúde prometem renomados hospitais, exames sofisticados e uma considerável carteira de médicos. Mas a realidade é bem diferente. Os médicos sofrem com a baixa remuneração e acabam optando pelo atendimento, digamos, ``express``.

Para se ter uma ideia, a maioria das consultas médicas é remunerada pelos planos com valores entre R$ 18 e R$ 50. Em casos extremamente raros, especialistas renomados recebem até R$ 200 somente de planos considerados top de linha pelo mercado. A situação piora, em se tratando de atendimento multidisciplinar. Paga-se de R$ 4 a R$ 7 pela sessão de fisioterapia, por exemplo.

Pressionados pela baixa remuneração, os médicos realizam de quatro a cinco consultas por hora.
São, em média, nem 10 minutos com o paciente. Esse tempo é obviamente insuficiente para a mínima investigação dos sintomas apresentados, podendo causar diagnósticos imprecisos. O bom exercício da medicina exige exame físico minucioso, atenção à história da doença, à descrição dos sintomas e uma análise, ainda que sumária, das condições de vida e da personalidade da pessoa a sua frente.

A fundamental relação entre médico e paciente simplesmente desaparece nos atendimentos remunerados pelos planos de saúde. São praticamente desconhecidos que entram e saem dos consultórios, sempre com guias de exames na mão e nenhuma certeza do mal que os aflige.
Em meio à falta de consenso entre operadoras e médicos, a população brasileira pena com problemas básicos de rotina como demora na marcação de consultas, na liberação de exames e até com o absurdo da negativa para realização de cirurgias.

As consultas se transformaram em verdadeiras linhas de produção, algo capaz de dar inveja à indústria automobilística. Já virou rotina clientes recorrerem à Justiça para conseguir ter acesso a procedimentos essenciais aos tratamentos.

O que os empresários parecem não enxergar é que, embora consigam mão de obra barata graças à proliferação de faculdades de medicina de baixíssima qualidade, acabam perdendo dinheiro ao pagar honorários irrisórios aos seus profissionais credenciados.

Isso porque, sem o exame físico adequado, os médicos solicitam procedimentos muitas vezes desnecessários, pagos pelos ``empresários da saúde``. Dor de estômago? Endoscopia. Tosse? Raio-x do tórax. Os resultados estão normais? Então é hora de exames mais complexos... E é assim que funciona a relação entre médico e paciente nos dias de hoje.

A economia no preço das consultas resulta em contas elevadíssimas pagas aos hospitais, porque lá chegam os pacientes que não tiveram o diagnóstico precoce. Ao que me parece, os lucros dos planos de saúde são tão elevados que até estas perdas com pacientes que acabam nos centros cirúrgicos são consideradas parte do jogo.

Sinceramente, me incomoda a má formação e a desqualificação dos meus colegas de profissão. No entanto, me preocupo muito mais com os pacientes atendidos por médicos que recebem menos por consulta do que os guardadores de carro da cidade de São Paulo.
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ALFREDO SALIM HELITO, 54, é médico de família, clínico-geral do Hospital Sírio-Libanês e coautor de ``Análise Crítica da Prática Médica`` (Campus)


NÃO
Eventuais insuficiências são localizadas

MARCIO SERÔA DE ARAUJO CORIOLANO E JOSÉ CECHIN

O setor de saúde suplementar é acusado de aumentar o número de beneficiários sem ampliar a sua rede de atendimento.

Recentes reportagens tentam fazer crer que a consequência é uma suposta generalizada insuficiência de atendimento. Os segmentos que não aceitam os benefícios proporcionados pela saúde privada partem da premissa de que os prontos-socorros existentes estão superlotados e que isto sinaliza o aumento excessivo do número de beneficiários de planos. É uma premissa equivocada.

O crescimento dos últimos anos, que ampliou o acesso de maneira formidável à população menos favorecida, resulta da melhoria dos indicadores econômicos e sociais e de investimentos feitos pelas operadoras de planos e prestadores de serviços médicos.

Não obstante o benefício do crescimento, o setor de saúde suplementar ainda é pouco compreendido. Ele é responsável por 4,7 milhões de internações ao ano e por 235 milhões de consultas ao ano, além de outros eventos assistenciais, desonerando o setor público em R$ 68 bilhões (dados de 2011).

Ano após ano, cada vez mais pessoas procuram os prontos-socorros dos hospitais privados. Em um mesmo local, é possível fazer uma consulta médica complementando-a com exames de toda natureza. Desta forma, poupa-se tempo, recurso escasso para a grande maioria das pessoas. Há um aumento da demanda, mas ele não pode ser visto de forma reducionista e limitada.

Analisar o seu desempenho a partir da visão microscópica da unidade de pronto-socorro retira a possibilidade de se enxergar o macrocosmo do sistema. Joga uma cortina sobre avanços formidáveis da medicina privada, que cada vez é menos invasiva e reduz a necessidade e o tempo de internação para diversas enfermidades.

O setor hospitalar investe cada vez mais em qualidade e tecnologia, sendo necessários menos leitos de internação. Ainda assim, o setor privado responde por 289.216 leitos, 63% de todos os leitos existentes, para atender a 25% da população.

O número de reclamações de tempo de atendimento no primeiro semestre de 2012 foi de 7.663, o que representa 0,006% do total de atendimentos realizados no período. Obviamente, a taxa global diminuta pode esconder grandes diferenças entre as operadoras.

Dados divulgados em novembro de 2011 reportavam que os principais hospitais privados do país planejavam investir nos próximos três anos quase R$ 4 bilhões. Entre 2007 e 2011, o número de leitos dos hospitais associados à Associação Nacional de Hospitais Privados passou de 5.047 para 9.071, um crescimento de 79,7%. Observe-se, por oportuno, que 94% das receitas desses hospitais provêm dos pagamentos feitos pelas operadoras de planos de saúde.

Por fim, não obstante o intenso e salutar esforço da autoridade reguladora em qualificar o sistema de saúde privada, estimulando a acreditação e a melhoria do desempenho das operadoras, ao se divulgar informações generalizadas passa-se a percepção equivocada de que o setor é homogêneo e que eventuais insuficiências localizadas por parte de uns são um problema de todos.

Quando as notícias são despejadas no atacado sem o critério e a preocupação de se olhar o cenário macro, o consumidor fica ainda menos confiante no sistema. Não acreditamos que isso seja intencional.
Diferentemente da citologia, o setor de saúde suplementar não pode ser bem compreendido com lentes microscópicas. Uma análise robusta não deve se afastar das estatísticas e dos dados disponíveis. Deve-se olhar para além da citologia sem cair na mitologia.
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MARCIO SERÔA DE ARAUJO CORIOLANO, 60, e JOSÉ CECHIN, 61, são, respectivamente, presidente e diretor-executivo da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde)


Fonte: Folha de S.Paulo

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