Os erros de enfermagem

Especialistas acreditam que apenas a responsabilização de funcionários específicos seja equivocada

Na semana passada, um idoso de 91 anos recebeu alimento na veia e morreu. Em outubro, outra idosa, de 80 anos, teve o mesmo fim após receber café com leite na veia. Ano passado, um menino de dois anos recebeu ácido em vez de sedativo. Outro de quatro anos teve parte do dedo cortada ao ser submetido a uma simples retirada de curativo, e, dois atrás, uma adolescente recebeu vaselina na corrente sanguínea em vez de soro.

Em comum, todos esses erros têm o fato de terem sido praticados pelo pessoal da enfermagem, a maioria auxiliares e técnicos. Nos últimos cinco anos, o número de denúncias envolvendo esses profissionais cresceu 30%. E é incrível que nenhum debate sério sobre como prevenir erros e mortes evitáveis esteja sendo feito.

Não basta acionar o piloto automático dos processos administrativos internos e inquéritos criminais. Isso, é claro, faz parte do protocolo, mas o buraco é mais embaixo.

Uma questão central é a falta de formação adequada do enfermeiro, técnico e auxiliar de enfermagem. A exemplo do que acontece com os médicos, o país viu crescer nos últimos anos o número de cursos de qualidade duvidosa na área de enfermagem.

O Brasil tem hoje cerca de 1,5 milhão de profissionais da área (300 mil enfermeiros, 1,1 milhão de técnicos e auxiliares), segundo o Conselho Federal de Enfermagem.

Além da má formação, os que estão no mercado pouco se atualizam porque ganham mal. Faltam políticas públicas que ofereçam capacitação gratuita a esses profissionais. Muitos serviços privados também não dão bola para isso.

Vários estudos indicam que esses profissionais também sofrem com a sobrecarga de trabalho, com o estresse e a fadiga. Isso se soma à baixa remuneração que os obriga a ter três, quatro empregos. É claro que isso não os isenta da responsabilidade e da obrigação de saber que, qualquer erro no cuidado com o paciente, pode ser fatal.

SEGURANÇA DO PACIENTE

Há, porém, uma outra forma de enxergar o problema. Especialistas acreditam que apenas a responsabilização de funcionários específicos seja equivocada pois a questão é muito mais ampla e diz respeito a todo um processo que passa por outros atores dentro de um hospital, por exemplo. Ou seja, os responsáveis não podem deixar de responder legalmente, mas é preciso observar tudo de forma sistêmica.

A verdade é que a saúde ainda está engatinhando quando o assunto é segurança do paciente. O que vemos acontecer hoje é a falta de preocupação com erros que ocorrem durante o percurso, problemas que não recebem a atenção necessária para a identificação e a correção.

O caso da auxiliar de enfermagem que em 2010 aplicou vaselina em vez de soro na veia da menina Stephanie, 12, provocando sua morte, é típico. Em depoimento à polícia, ela disse que foi induzida ao erro pelo próprio hospital, já que o recipiente onde estava armazenado o liquido não dava condições de saber que se tratava de vaselina. Ou seja, soro e vaselina estavam em recipientes iguais, com o mesmo tipo de letra, posição e diagramação.

Muitos programas de segurança hospitalar se miram hoje nas regras da aviação. Em um avião, por exemplo, qualquer falha é registrada e estudada, para que as soluções sejam encontradas e que o mesmo erro não se repita. É claro que acidentes acontecem e vão continuar acontecendo, mas essas atitudes preventivas minimizam em muito as chances de dar alguma coisa errada.

Nos hospitais, a revisão dos processos e a capacitação permanente dos profissionais deveria ser a regra número um. Mas, infelizmente, há muitos gestores mais preocupados com hotelaria (porque é isso que salta aos olhos do cliente) do que em investir na segurança do paciente. Quantas Stephanies ainda vão precisar morrer para que esse assunto seja levado a sério?

Fonte: Folha de S.Paulo / Cláudia Collucci

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