Ginecologistas acusam plano de saúde de interferir

13% dos médicos abandonam a obstetrícia

Ginecologistas e obstetras do Estado de São Paulo consideram ruim ou péssimo o atendimento dos planos de saúde e afirmam que interferências das operadoras acabam afetando seu exercício profissional. São situações como a redução do período de internação pedido pelo médico e a designação de auditores para autorizar procedimentos, o que, segundo os médicos, prejudica o tratamento das pacientes.

Esse é o quadro geral obtido por pesquisa Datafolha encomendada pela Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo (Sogesp) e divulgada ontem. Com base em entrevistas feitas por telefone com uma amostra de 451 profissionais associados à Sogesp, a pesquisa aponta que 97% deles consideram que, em algum grau, há interferência das operadoras, sendo que para 58% a interferência é grande ou muito grande.

Quando perguntados sobre como avaliam a qualidade dos serviços dos planos ou seguros de saúde, 45% disseram ser ruim ou péssima. A avaliação foi pior que a feita sobre a qualidade do serviço público de saúde, considerado como ruim ou péssima por apenas 29% dos entrevistados.

``Os médicos sempre viram o serviço público como um mau remunerador. Historicamente, sua renda vinha mais do consultório. Há duas ou três décadas, os médicos achavam que os planos pagariam melhor, mas hoje eles remuneram tão mal quanto historicamente pagou mal o sistema público``, afirma César Fernandes, presidente da Sogesp.

O problema mais grave apontado, no entanto, foi a questão da interferência. A situação mais citada, por 87% dos entrevistados, foi a chamada ``glosa de procedimentos``, em que a operadora se recusa a pagar por atos já realizados pelo médico.

Os entrevistados foram questionados também sobre quais planos interferem mais em seu trabalho. Entre os oito citados, os que receberam mais destaque foram Amil (15%), Intermédica (13%) e Sulamérica Saúde (13%).

``As empresas estão impedindo que o profissional realize medicina de padrão, dificultando o atendimento. O médico não consegue realizar consultas com clareza e precisão, o que pode prejudicar a saúde da mulher``, diz Maria Rita de Souza Mesquita, coordenadora da Comissão de Valorização Profissional da Sogesp.

Danos. Apesar de a pesquisa não ter abordado os possíveis danos da interferência, os médicos contam que a percepção é de que, a longo prazo, um atraso num prognóstico pode levar a uma piora da saúde da mulher.

É o caso de uma paciente, ouvida pela reportagem, que não quis se identificar. Com um mioma no útero, ela foi informada em maio por seu médico que teria de fazer uma cirurgia. Ele recomendou uma videolaparoscopia, porque o tumor tinha um tamanho pequeno. O pedido foi encaminhado à operadora do plano dela em junho, mas a autorização só saiu na semana passada. ``Só que, nesse meio tempo, o mioma cresceu e agora vão ter de fazer cirurgia aberta``, conta.

De caso ainda pior se recorda o médico Paulo Nicolau, também da Sogesp. Uma paciente grávida de gêmeos precisava de um ultrassom sofisticado. Só conseguiu autorização para fazer um exame simples, que não diagnosticou um problema que levou os bebês à morte.

De acordo com Fernandes, os resultados da pesquisa serão encaminhados para Agência Nacional de Saúde Suplementar, Conselho Nacional de Justiça, Congresso Nacional e Assembleia Legislativa do Estado.

A Federação Brasileira de Associações de Ginecologia e Obstetrícia informou que pretende expandir uma pesquisa nos mesmos moldes para todo o País.

Outro lado. As três operadoras mais citadas na pesquisa mandaram notas à imprensa.

A Amil disse que ``não interfere, de maneira alguma, na autonomia dos médicos e outros profissionais de saúde de sua rede credenciada`` e a ``solicitação de exames, indicação de procedimentos cirúrgicos e outras rotinas de responsabilidade do médico são plenamente respeitadas pela empresa``.

A Intermédica afirmou que a maioria de seu corpo clínico atua em centros clínicos e maternidades próprios da empresa. E que ``os poucos médicos ginecologistas e obstetras credenciados nossos em consultórios próprios não sofrem a menor interferência de nossa parte``.

A Sulamérica disse que ``atua em linha com o que preconiza a Resolução Normativa n.º 259, até mesmo para internações e procedimentos de alta complexidad,e e cumpre as diretrizes estabelecidas pela ANS``.

13% dos médicos abandonam a obstetrícia

A pesquisa também revelou que médicos vêm desistindo de atuar como obstetras. Entre os entrevistados pelo Datafolha, 13% disseram ter deixado de fazer partos nos últimos anos.

O número reforça um movimento já observado pela Associação Médica Brasileira, que emite os títulos de especialistas: a queda da procura de jovens médicos pela residência em obstetrícia. Em 2001 foram emitidos 553 títulos; no ano passado, somente 260, praticamente a mesma quantidade registrada em 1992.

Para a Sogesp, isso ocorre especialmente por dois motivos. A baixa remuneração dos partos (cerca de R$ 250 pelos planos) e a necessidade de estar sempre disponível. ``É algo desgastante e o pagamento por essa disponibilidade não é previsto. Os honorários foram aviltados de tal maneira nos últimos 15 anos que está tornando o atendimento inviável``, diz Cesar Fernandes. / G.G.


Fonte: GIOVANA GIRARDI - O Estado de S.Paulo

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