Tendências e Debates: Médicos com o selo ``60% de acertos``

POR FABRICIO DONIZETE DA COSTA E HENRIQUE SATER DE ANDRADE

Seis anos depois de ingressarmos em uma das melhores faculdades de medicina do Estado, recebemos em julho deste ano a notícia de que um decreto do Cremesp, o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, nos obrigaria a realizar um exame para podermos atuar como médicos.

Vários especialistas defendem a prova. Ignoram, porém, os buracos de um teste nesses moldes.
Como uma prova de múltipla escolha pode avaliar seis anos de contato vivo com a educação médica, com laboratórios de anatomia, visitas domiciliares a pacientes em bairros periféricos, plantões de 24 horas em prontos-socorros e consultas em ambulatórios especializados?

Não há nada em uma prova assim que lembre a diversidade dos cenários de prática que vivemos diariamente durante o curso de medicina.

No afã pela cura das deficiências na educação médica no Brasil, pela redução do número de erros médicos e dos males causados pela abertura de novas escolas, surge a panaceia do exame do Cremesp.

Nós acreditamos que o nosso curso precise, sim, de avaliação externa, mas não por prescrição goela abaixo, com a fórmula amarga de um exame de habilitação ranqueador e punitivo.

Vão dizer que os estudantes são sempre do contra. Ou que não gostamos de provas, que somos medrosos. Temos medo é de formas minimalistas e precipitadas de enxergar os problemas.

A medicina é um curso eminentemente relacional, que mistura teoria e prática, multidimensional. Trata-se de uma carreira que nos impele à educação permanente e ao trabalho em equipe. Vamos acreditar que a sociedade terá as suas necessidades atendidas por médicos com um selo ``60% de acertos``, tornando alunos reféns de exame?

Em vez da pretensão de avaliar a formação de um estudante de medicina em um único plano, monocromático, seria mais plausível avaliar currículos, campos de prática, estrutura universitária e corpo docente. A prova só garantirá que os reprovados serão taxados pelos problemas causados por um processo de seis anos de déficits.

Não somos críticos do exame por medo de não alcançarmos a nota mínima desejada, mas por contestarmos a falsa sensação de que ele cria segurança. A população terá as suas necessidades atendidas de melhor forma com um esforço de avaliação mais amplo, continuado e com várias dimensões. É preciso também garantir infraestruturas material e humana adequadas às escolas.

Depois de seis anos de longos estudos, especialistas que sequer discutem nossos currículos nos obrigarão a fazer uma prova. Se as múltiplas escolhas da prova se tornaram a única escolha, não há como os alunos não se manifestarem contra.

FABRICIO DONIZETE DA COSTA, 24, e HENRIQUE SATER DE ANDRADE, 23, são estudantes do último ano do curso de medicina da Unicamp

Fonte: Folha de S.Paulo

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